Venda com saúde

March 2, 2016

Disseminação dos hábitos saudáveis e busca por uma vida longeva escancara potencial desse nicho de mercado.

 

Abrir um negócio coerente com conhecimentos do varejista e que faça sentido em sua vida é apontado por analistas do setor como a primeira evidência de que o empreendimento pode dar certo. No varejo de produtos saudáveis, essa premissa parece fazer ainda mais sentido já que o nicho funciona como uma verdadeira consultoria para qualidade de vida.

A jornalista Kátia Cecotosti resolveu dar uma guinada em sua vida profissional em 2012, depois de enfrentar dificuldades em encontrar produtos que seu filho, intolerante à lactose, pudesse consumir. “Gastava um tempo enorme lendo rótulos em supermercados para escolher produtos. Foi aí que comecei a pesquisar e descobri uma demanda, que não era só de consumo para quem tem restrições, mas do saudável como um todo, e percebi uma alta rentabilidade nesse nicho”, comenta Kátia, fundadora de um dos únicos clubes de assinatura do segmento no País, a Natural Box.

Esse também foi o caso do ex-jogador profissional de vôlei Eduardo Dimand, que, quando começou a praticar fisiculturismo, detectou uma deficiência no varejo brasileiro em oferecer produtos saudáveis para quem quisesse perder peso e ganhar massa muscular. “Sabia que outras pessoas gostariam de mudar seus hábitos alimentares e ganhar qualidade de vida, mas, assim como eu, não tinham tempo nem sabiam de que maneira fazer isso”, relembra.

Com a proposta de funcionar como uma “farmácia de manipulação de alimentos”, a ProntoLight foi criada em 2008 e passou a oferecer produtos congelados, porcionados de acordo com a necessidade de cada cliente e também pacotes predefinidos segundo a intenção do consumidor, como no caso dos planos detox, sem glúten ou emagrecimento. A empresa tem hoje uma carteira de 20 mil clientes com cerca de mil novos clientes por mês, tíquete médio de R$ 350 e crescimento anual em torno de 400% nos últimos dois anos.

Em comum, os dois empreendimentos carregam o conceito de “vender” um estilo de vida saudável e oferecer conveniência e facilidade, já que ambos auxiliam na seleção dos produtos mais adequados e os entregam na casa dos clientes.

De acordo com a Euromonitor International, os produtos naturais movimentaram U$$ 36,4 bilhões em 2013 no Brasil, com crescimento acumulado de 83% nos últimos cinco anos. A alimentação saudável foi a segunda maior tendência global do consumo projetada no início do ano pelo Euromonitor, que estima um aumento de 6,9% na venda de produtos com redução de sal, açúcar e gordura na América Latina até o final de 2014.

Já um estudo da empresa britânica Dunnhumby, especializada em ciência do consumidor, indica que 90% dos brasileiros consideram que a indústria e os varejistas devem liderar o incentivo a um estilo de vida mais saudável. Nos Estados Unidos, apenas 58% das pessoas pensam assim e no Reino Unido, 59%. Em comparação com países como Reino Unido e Estados Unidos, o Brasil é o que mais prioriza a qualidade do alimento como um fator mais relevante até que o preço, com 73% da população defendendo essa posição. Ainda de acordo com o estudo, 79% dos brasileiros consideram saúde e nutrição uma prioridade em suas vidas e 89% consideram importante sempre consumir refeições balanceadas. Quem descobriu esse filão tem apresentado bons resultados. A DNA Natural, por exemplo, é uma rede de franquias de fresh-food nascida em Santa Catarina, que hoje tem 45 unidades espalhadas em todo o País dividas em três modelos de negócio: bistrôs de rua, lojas de shopping e quiosques. O fluxo mensal divulgado pela marca é de 200 mil clientes. Com o mesmo número de lojas assinadas para 2014, a Seletti Culinária Saudável tem a proposta de oferecer comida fresca no fast-food. Com um tíquete médio de R$ 22,80, o gerente de expansão da rede, Leo Barros, informa atender um segmento de mercado mais elevado que o junk food. “Mas procuramos nos adequar aos públicos de outras classes sociais, variando a localidade de nossas lojas. Queremos chegar a 55 lojas até o final do ano que vem”, diz.

 

TENDENCIA MULTIMERCADO

O crescimento do mercado de produtos antissedentarismo tem impactado diretamente no varejo de produtos saudáveis, no qual estão incluídos: restaurantes, academias, lojas de roupas esportivas, de calçados, de produtos orgânicos, fresh-food, barras de cereais, energy drinks e redes de franquias de suplementos. As oportunidades desse mercado estão por todos os lados. Nos Estados Unidos, a Lululemon foi bem-sucedida em ampliar seu mercado consumidor ao conseguir popularizar as roupas de ginástica, enquanto a Adidas agregou prestígio com coleção assinada por Stella McCartney. Já a Nike tem acompanhado uma verdadeira transformação no estilo de vida das pessoas, e mais recentemente das mulheres de todo o mundo, em que o esporte e o bem estar estão se tornando protagonistas em suas vidas. Essa mudança no comportamento é o que tem regido o posicionamento da marca no Brasil, segundo o diretor de comunicação da empresa, Alexandre Alfredo. A empresa criou programas como o Top na Medida e Consultoria de Looks, em que consultoras tiram medidas das clientes e as auxiliam na melhor combinação entre as peças de roupa. Participar da vida desse cliente é uma busca incessante das marcas esportivas. A Nike teve bons resultados com clubes de corrida como o Nike Ipanema Running Club e o São Paulo Running Club, que agendam encontros semanais e treinos vem descontraídos para aproximar o consumidor da marca. A rival Adidas não pensa diferente. O diretor mundial da marca, Thomas Marin, conta que a companhia trabalha principalmente com três pilares: esporte, inovação e crescimento. A partir deles, as equipes das lojas são treinadas para conhecer o consumidor, com foco nas necessidades do cliente, muito mais do que na conversão da compra em si. Para expressar esse posicionamento, não há nada mais conveniente do que chamar atletas para fazer publicidade. São eles próprios que testam as inovações e novas tecnologias desenvolvidas pela Adidas, que busca considerar as particularidades dos diferentes perfis de atleta. Um exemplo é o do tênis de corrida Nike Zoom Pegasus 31, que foi desenvolvido em parceria com o esportista inglês Mo Farah, atual campeão olímpico e mundial dos cinco mil e dez mil metros e um dos principais nomes do atletismo mundial.        O grande apelo é transmitir a ideia que o mesmo calçado utilizado pelos atletas mais bem preparados do planeta pode ser adquirido por qualquer iniciante no esporte.

Mas o varejo esportivo abre possibilidades também para empresas cujo foco principal não é o alto rendimento. É o caso da Rainha, pertencente ao grupo Alpargatas e que preza por conceitos mais lúdicos, como conforto, qualidade, diversão e liberdade, no desenvolvimento de seus calçados. Para o diretor de artigos esportivos da marca, Fernando Beer, em decorrência da rotina estressante que muitas pessoas vivem atualmente, tem aumentado a busca por uma alimentação saudável e atividades que tornem o dia a dia mais leve. “A Rainha busca estimular esse movimento do bem-estar trazendo produtos que auxiliem o consumidor a realizar essas atividades de forma confortável e divertida. Na coleção do Verão 2015, por exemplo, apostamos em tecidos e modelagem que favoreçam o movimento, além de estamparias mais vivas e modelos mais leves”, comenta.

 

EM FORTE ALTA

Para Ana Vecchi, da Vecchi Ancona Consulting, atravessamos hoje uma segunda onda do comportamento saudável no consumo.

“A primeira onda se constituiu em um movimento muito mais passivo, que eram as clínicas estéticas. A ideia era: já que você não faz exercício, venha fazer passivamente o que você deveria fazer com o seu corpo ativamente”, comenta.

Atualmente, Ana observa um conjunto de hábitos mais consistente em relação à alimentação saudável. “Hoje já existe uma consciência por parte dos consumidores a respeito dessa questão integrada da atividade física com a alimentação saudável e nas franquias de produtos naturais”, acrescenta. O varejo já percebeu a importância da promoção de eventos para ganhar a atenção e a confiança de seus consumidores. A Netshoes, por exemplo, promove a Fun Race, prova de seis quilômetros que busca integração com seus clientes. A primeira edição da prova, em fevereiro, tem como inovação a flexibilidade de horário para largada. Além da largada oficial- marcada para às 7 horas-, os corredores têm a opção de outras duas largadas em horários alternativos: uma às 7h30 e outra às 8 horas.

O GPA, por sua vez, organiza há mais de 20 anos o maior circuito de maratonas de revezamento do mundo, em São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Brasília. Somente a Maratona de Revezamento Pão de Açúcar de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Brasília. Somente a Maratona de Revezamento Pão de Açúcar de São Paulo reuniu mais de 36 mil participantes na edição do ano passado, sendo considerada a sexta maior corrida de rua do planeta.

Preocupada em reafirmar sua preocupação com a vida saudável, o McDonald´s promoveu em outubro do ano passado a 5K- Mulheres em Movimento, maior corrida feminina de rua da América Latina. O evento foi realizado simultaneamente em Brasília, em Curitiba, em São Paulo e no Rio de Janeiro e reuniu 25 mil participantes.

Mesmo sem oferecer produtos ligados especificamente às práticas esportivas, outro varejista presente no calendário de corrida é o Carrefour, que para comemorar o aniversário da maior cidade do País, promove em janeiro o Troféu Cidade de São Paulo, corrida com cerca de dez mil participantes e percurso de seis quilômetros.

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