A saturação do mundo gourmetizado.

June 1, 2017

Carne de porco. O casal Ricardo Aquino e Adriana Ferreti apostou em comida artesanal de rua - Fabio Rossi / Agência O Globo
 

 

Termos exaustivamente usados, que sugeriam status, já não impressionam. Quem investe nas ondas do momento tem que saber se destacar.
 

RIO — ‘Prove nosso hambúrguer gourmet artesanal”, “Todos os nossos produtos são orgânicos, sem glúten ou lactose”, “O evento terá food trucks ” ou “Somos uma marca premium”... Quem não ouviu estes termos em anúncios recentemente?

 

Essas são só algumas das palavras usadas (e abusadas) para sugerir que um determinado produto tem qualidade superior aos demais e, consequentemente, pode custar mais caro. Inicialmente, tais expressões até impressionavam. Mas, aplicadas à exaustão por empresários sem muita criatividade, caíram no lugar comum e deixaram de ser atrativas. Hoje, por exemplo, qualquer cantina de escola ou hospital é chamada de “Espaço Gourmet”.

 

A pesquisadora do Centro de Estudos de Consumo do Coppead/UFRJ Ana Paula de Miranda explica que o processo para criar-se uma moda é sempre igual, independentemente do produto: surge com um fato verídico — por exemplo, alguns consumidores serem alérgicos a glúten. O discurso, então, começa a ser apropriado por ser diferente, pois o consumidor busca o novo (ainda que seja o velho com outra roupagem) e, daí, vem o desenvolvimento de um mercado — e a moda.

 

— As pessoas aderem a essas modinhas para mostrar que têm uma posição de status “diferenciada”, seja da informação, no caso de parecer bem informado sobre o glúten, por exemplo, ou porque gourmet é mais caro — diz Ana.

 

Acontece que, após um momento inicial em alta, tal comportamento se populariza e, aí, perde a graça. É quando surge uma nova moda — totalmente inversa à anterior. Isso sem contar a concorrência, que aumenta. Por outro lado, se algo está em voga, é porque há demanda. Como saber se um tipo de negócio já está perto da saturação?

 

Lucas Yuki, coordenador regional da Endeavor Rio de Janeiro, lembra da moda das paletas mexicanas e do iogurte grego, em voga há alguns anos, antes da “onda de raio goumertizador", e destaca a lição que ficou:

 

— Houve um pico desses produtos e muitos investiram dinheiro sem conhecer esses mercados apenas porque eram moda. Algumas marcas conseguiram se diferenciar. Mas a maioria fechou.

A primeira orientação, segundo ele, é de não investir em um nicho só porque é tendência: justamente por estar em alta, a concorrência será maior e, quem não estiver preparado, ficará para trás. A segunda dica é ser diferente dentro do negócio proposto.

 

— O empresário deve ter uma conexão forte com o empreendimento, pode ser um hobby ou um mercado que ele já conheça. É um casamento, tem que haver paixão. E é preciso se destacar — afirma Yuki.

 

 

O pulo do gato

 

Nesse mundo em que todos se vendem como excepcionais por oferecer um produto feito à mão e com ingredientes de primeira, Rodrigo Arjonas conseguiu seu espaço — bem grande, aliás.

 

Em vez do tradicional food truck, ele apostou em um ônibus para vender seus hambúrgueres artesanais, o Busger.

 

— Entrei nesse mercado por necessidade. Atuava no ramo de construção civil, que estava parado, e então comecei a avaliar algo em alimentação. Foi aí que nasceu a ideia de usar um ônibus em vez do truck. Procurei os mais chamativos possíveis, pois, aonde eu parasse, ganharia atenção. Foi assim que nasceu o Busger. O hambúrguer veio depois: eu e meu sócio fizemos pesquisas de mercado e fomos atrás da liquidez, de um produto que tem giro, como sanduíches, batata, cerveja e sobremesas — conta o empresário.

 

Quem também encontrou um “filezão” no ramo de comida de rua foi o casal Ricardo Aquino e Adriana Ferreti. Ele começaram na feirinhas da Praça José de Alencar e no chorinho da Praça São Salvador, na Zona Sul, e logo o negócio cresceu. Após nove meses, inauguraram o food truck Oinc Point e hoje, além da venda na rua, participam de eventos e ações corporativas. Em breve, vão inaugurar o serviço de entregas. O caso deles ilustra o que Yuki fala sobre ser diferente e entender do negócio, pois Aquino já conhecia bem gastronomia.

 

— Estavámos desempregados. Sempre tive a gastronomia na minha vida, mesmo como hobby. Então veio a pergunta: Por que não transformar esta paixão em negócio e fazer dele o nosso sustento?

 

Aquino sabia que muitos outros haviam pensado o mesmo em meio à crise econômica, tornando o mercado do food truck cada vez mais disputado. O caminho, diz, foi se profissionalizar.

 

— A cozinha de um food truck deve sempre trazer sabores autorais, desde a maionese caseira, aos molhos feitos com receitas próprias, entre outros. Ser diferente permite a sobrevivência em um mercado competitivo. Assim, é perfeitamente viável investir em mercados que estejam em alta — assegura.

 

 

‘Apps’ têm vida curta

Tunico Almeida, CEO da cerveja artesanal Praya: aposta em distribuição e um só rótulo - Divulgação 

 

Outro produto/serviço que está na moda é o tal aplicativo. É app para cá e para lá. Lojas, shoppings, restaurantes, saúde, transporte, até namoro... Será que o consumidor consegue absorver esse mercado que só cresce — e os smartphones têm memória para tudo isso?

 

De acordo com os especialistas, sim. Mas há dois caminhos. Um deles é a fidelização cada vez mais segmentada e a outra é uma cooperação, com plataformas que unam os vários aplicativos solitários.

 

A pesquisadora Ana Paula equipara a disputa pela atenção dos apps no mundo virtual à de um shopping, com diversas vitrines físicas:

 

— Essa quantidade de aplicativos tem vida curta. O que pode acontecer é o consumidor ficar fiel a alguns, ou a uma cooperação entre todas as opções daquele segmento, com plataformas que as reúnam, como o shopping. A lógica é a mesma: juntas, têm mais força.

 

Para Ricardo Wargas, gerente de soluções e inovações do Sebrae-RJ, o crescimento do número de aplicativos a cada dia vem de encontro ao comportamento do consumidor em querer cada vez mais informações e em ritmo acelerado.

 

Assim como Ana, ele também acredita que a tendência (hoje existem poucos modelos vigentes) é a consolidação setorial de vários aplicativos para pulverizar várias empresas do mesmo segmento e evitar que as pessoas façam várias procuras.

 

Hoje, há alguns exemplos de ambos os modelos no mercado. No Rio, o restaurante japonês Umê lançou, recentemente, um aplicativo para estreitar o relacionamento com seus clientes. Para Rodrigo Almeida, um dos sócios, vale a pena, pois o objetivo é fidelizar.

 

— Desenvolvemos para os clientes que já temos. Para conquistar novos, pensamos em aderir à uma plataforma de delivery.

 

Já no modelo pulverizado, a área da saúde é uma das que mais cria apps. Com a crise nas operadoras e no Estado, algumas empresas viram mais oportunidade do que saturação.

 

— Vale muito investir. Se você encontrar uma forma de oferecer um serviço que facilite o dia a dia das pessoas e seja simples, estará diante de uma grande chance — afirma Rafael Multedo, CEO da Tecvidya, que criou o Saúde Já, uma das atuais plataforma digitais para o agendamento de consultas no mercado.


Por Raphaela Ribas

 

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